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Lançamentos

Renato, seus Blue Caps
e seus CDs

Emílio Pacheco resenha a caixa de Renato e seus Blue Caps, recentemente lançada pela Sony BMG e que oferece todos os álbuns gravados pela banda entre 1965 e 1981.

Emílio Pacheco

Uma caixa de CDs com a obra completa de Renato e Seus Blue Caps na CBS (hoje Sony Music)? Bem... quase isso. Por motivos burocráticos, ficaram de fora as faixas exclusivas de compactos. Muitas já tinham saído antes como faixas-bônus de CDs e outras apareceram no relançamento (hoje fora de catálogo) dos LPs As 14 Mais. Mas mesmo quem já comprou as edições anteriores (e com certeza quererá mantê-las) vai se interessar por este pacote. Ele contém os 15 LPs de Renato para a CBS, de 1964 a 1981, com som inteiramente remasterizado. Seis deles, lançados entre 1972 e 1979, nunca tinham sido saído antes em CD. Um EP bônus inclui as quatro faixas do compacto duplo Vera Lúcia, que foi a estréia do grupo na gravadora. As contracapas de cada álbum foram reproduzidas fielmente nos encartes e de forma adaptada nas costas de cada CD. E os textos trazem informações detalhadas sobre as sessões de gravação redigidas pelo produtor do relançamento, Marcelo Fróes, editor do IM.

Renato Barros foi o único integrante a fazer parte de todas as formações. Mas, no caso desta caixa, também Cid Chaves participa de todos os LPs relançados. Ele que saiu da banda de Roberto Carlos para substituir Roberto Simonal (irmão de Wilson) no sax, acabou ficando até mesmo quando o grupo dispensou o instrumento na fase de versões de Beatles e companhia. Cid já estava incorporado aos vocais e até hoje é o mestre de cerimônias nas apresentações. Os primeiros oito CDs já tinham sido relançados, embora estivessem fora de catálogo. São eles Viva a Juventude (1964), Isto é Renato...(1965), Um Embalo (1966), Renato e Seus Blue Caps (1967), Especial (1968), mais os LPs de 69, 70 e 71, todos intitulados Renato e Seus Blue Caps. Mas a melhora no som nesta reedição é notável. Por exemplo, peguem qualquer prensagem anterior de Viva a Juventude e percebam uma sutil falha de áudio na introdução de "Tremedeira". Isso foi corrigido na remasterização.

Os fãs consideram como clássica a formação do grupo que durou de 1964 a 1968: Renato Barros na guitarra e vocal, Paulo César Barros (irmão de Renato) no baixo e vocal solo, Carlinhos na guitarra e vocal, Cid Chaves no sax e vocal (e mais tarde apenas vocal) e Tony na bateria (ressalte-se que Cláudio Caribé é quem está nas baquetas no compacto Vera Lúcia, tendo participado também, sem crédito, em algumas faixas de Viva a Juventude, que teve ainda o vocal não listado do ex-integrante Erasmo Carlos). O LP de 1968 teve também Mauro Motta nos teclados. No ano seguinte, saíram Paulo César e Carlinhos, que tentaram carreira solo com um compacto cada um. Entraram Pedrinho no baixo e Scarambone nos teclados. Mas, sem PC, o grupo perdeu seu melhor cantor. Coube a Renato e Cid assumir as vozes principais nos LPs de 1969 e 1970 e consolidar a dobradinha em uníssono que ainda hoje se ouve nos shows.

Paulo César acabou voltando para o LP de 1971. E, com seis integrantes, Renato lançou o melhor trabalho pós-Jovem Guarda de um nome projetado pelo movimento que não Roberto ou Erasmo. O grupo injustamente lembrado por "só gravar versões" apostou num repertório de composições originais e explorou novos estilos. "Sou Louco Por Você" é um fado, "Nós Dois" é uma canção de influência barroca que lembra sucessos de festivais como "Sabiá" e "Kyriê", "46-77-23" e "Não é Nada Disso" bebem das águas latinas de Santana, "Sou Amor Pra Te Entregar" esbanja sopros de metal à moda de grupos americanos da época (e também Beatles em "Got To Get You Into My Life"), "O Brinquedo Se Quebrou" é uma balada com um belo vocal e "Sheila" e "Você Vai Me Ouvir" são encarnações amadurecidas do rock que o grupo fazia nos anos 60. Esse disco é a prova irrefutável de que houve, sim, uma tentativa de descartar o estilo Jovem Guarda e buscar uma nova linguagem. Quem examinar a discografia de Wanderléa, Leno e Lílian e outros verá que não foi um fenômeno isolado. Hoje há quem diga que a Jovem Guarda não morreu, mas na verdade ela foi ressucitada.

Em 1972 saiu o baterista Tony e entrou Gélson, que até hoje permanece. O grupo voltou às versões, mas manteve a proposta de novos rumos. Isso resultou, a princípio, em algumas direções incertas. A fase a partir desse ano oscila entre excelentes gravações e breguices dispensáveis. Em 1973, sem muito alarde, juntou-se ao conjunto um tal de Ivanilton, um negro de ótima voz, para substituir o vocal de Paulo César, que estava novamente com um pé fora da turma (mas chegou a cantar em "Se Você Soubesse"). Em 1974, uma surpresa: a bonita balada "Eu Não Aceito Teu Adeus" trouxe o grupo de volta às paradas, com direito a aparição no "Globo de Ouro". Em 1975, pela primeira vez desde 1964, Renato ficou um ano sem lançar disco. Em compensação, o LP de 1976, 10 Anos de Renato e Seus Blue Caps mostrou um equilibrado estilo neo-Jovem Guarda, com canções simples e bonitas. (Difícil é entender como fizeram as contas, pois o título não fecha nem com o surgimento do grupo, nem com o primeiro 78 RPM, com o primeiro LP ou a estréia na CBS. Enfim, como bons artistas, diminuíram a idade.) "Como Há Dez Anos Atrás" cita Beatles na letra e na introdução copiada de "What You're Doing". A levada country de "Quero Conquistar Você" e "Não Sei Dizer" hoje lembra o 14 Bis, banda mineira que só surgiria em 1979 e, conscientemente ou não, teve influência de Renato. "Eu Preciso Tanto de Você" é uma balada romântica para tentar repetir o sucesso de "Eu Não Aceito Teu Adeus". 10 Anos é o segundo melhor álbum do grupo nos anos 70, perdendo apenas para o de 1971. Como aquele, também não teve versões.

Ivanílton, que já fazia sucesso fora do grupo cantando em inglês, saiu para dedicar-se à carreira solo. Seu nome artístico era agora Michael Sullivan. Enquanto isso, Renato e Seus Blue Caps, quase antecipando uma tendência pós-anos 80, regravaram seus antigos sucessos para um projeto que veio a ser descartado. Apenas "O Brinquedo Se Quebrou" foi aproveitada no LP de 1977, que resgatou a prática de versões de Beatles ("Baby's in Black" virou "O Que Eu Posso fazer" e "If I Fell" na adaptação ficou "Tudo o Que Eu Sonhei"). O tecladista Scarambone estava fora e breve o baixista Pedrinho sairia também. "Sem banda", como declarou a seu irmão Paulo César, Renato conseguiu que o baixista e cantor voltasse pela segunda vez para o LP Suco de Laranja, de 1979. Nos teclados entrou Marquinhos, que já teve chance de fazer vocal solo em "Aperta". PC fez uma bela interpretação em "Tudo em Vão" e, como um todo, o álbum abraçou a disco music, tentando manter Renato em sintonia com as tendências da época.

O último LP pela CBS, lançado em 1981, teve participação de Zé Ramalho na versão de "Mr. Tambourine Man". Esse é o único álbum posterior a 71 que já tinha sido relançado em CD. Depois disso o contrato de Renato não foi renovado (nem o de diversos contemporâneos do grupo do tempo da Jovem Guarda exceto Roberto Carlos) e uma fase foi encerrada oficialmente. O grupo teve seus altos e baixos, mas o reconhecimento é hoje sólido e merecido. No ano em que a Jovem Guarda completa 40 anos, a banda mais antiga do mundo em atividade ininterrupta ganha uma caixa à altura, com aspecto luxuoso e tratamento caprichado nos fonogramas. Já não era sem tempo.


* Artigo publicado originalmente no International Magazine nº 111, de Abril de 2005.