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Lançamentos

É uma brasa que não se apaga, mora?
Ele foi o artista brasileiro de maior sucesso nos anos 60, 70, 80 e 90. Enfrentou críticas e dramas pessoais, atravessou épocas de diferentes tendências de comportamento, moda e política, mas em momento algum sua popularidade foi abalada. A exemplo dos Beatles, aqueles que imaginaram que surgiria um ídolo para ser o seu sucessor esperaram em vão: Roberto Carlos continua sendo o Rei. O Século XXI tem sido um momento de retrospectiva para esse cantor nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Já saíram coletâneas, um acústico e agora mais um DVD ao vivo. O que estava faltando? A caixa de CDs, é claro!

Emílio Pacheco

"Anos 60" é o primeiro volume da série "Pra Sempre", produzida por Guto Graça Mello com apoio de Marcelo Fróes. É o começo de um projeto que irá relançar toda a obra do Rei com os fonogramas remasterizados. Esta palavra, aliás, virou clichê de marketing e costuma deixar os colecionadores desconfiados. Como assim, remasterizado? De novo? Já não tinha sido antes? A verdade é que a remasterização não é uma ciência exata. É um processo que pode ser repetido inúmeras vezes, com resultados diversos. Mas quem já ouviu os CDs anteriores de Roberto Carlos sabe que eles ainda estavam por merecer uma edição definitiva. Pois ela chegou.

O primeiro relançamento dos discos de Roberto Carlos em CD aconteceu em 1989. Não houve qualquer reprocessamento, as fitas foram simplesmente digitalizadas como estavam e assim lançadas em "compact disc", como ainda se dizia. A saudosa revista Somtrês, que analisava tecnicamente lançamentos em CD e vinil, ficou sem adjetivos para qualificar a ruindade do som de É Proibido Fumar. E assim os demais CDs também sofriam do mesmo mal. É que, no tempo do LP, o som ganhava amplitude no momento do "corte", que era a marcação dos sulcos na matriz para prensagem. A espessura do vinil também impunha um limite que tinha que ser levado em consideração na mixagem. Como os primeiros relançamentos em CD eram meras digitalizações da matriz pré-corte, os resultados eram desastrosos. No começo, a maioria dos disquinhos trazia um aviso de que a digitalização poderia "revelar limitações da gravação analógica original." Vigorava no Brasil uma falsa idéia de que não havia muito o que se pudesse fazer para recuperar fitas antigas. Enquanto isso, nos Estados Unidos, gravações dos anos 50, com as de Bill Haley, por exemplo, soavam primorosas em relançamentos do tipo From The Original Master Tapes.

Nos anos 90 houve um lote de CDs de Roberto Carlos, agora sim, remasterizados. Já se percebeu uma sensível melhora em relação aos lançamentos anteriores, com eliminação dos chiados e realce da voz e dos instrumentos. Mesmo assim, faltava um certo brilho, como se o polimento dos ruídos tivesse tirado também o verniz das gravações. O fato é que a obra do Rei clamava por um relançamento mais caprichado. Coube a Ricardo Garcia, sob a supervisão do produtor Guto Graça Mello, voltar às fitas Scotch de um quarto de polegada e recomeçar o trabalho do zero. As gravações passaram por um processo de remasterização padrão novo milênio e é esse o maior atrativo para que esta caixa seja comprada mesmo por quem já tem os CDs anteriores. Os disquinhos estão em embalagem de mini-LP (capinhas de papelão) com letras, datas de produção e ficha técnica. Fica-se sabendo, por exemplo, que Roberto foi acompanhado por integrantes dos Youngsters e Renato & Seus Blue Caps na maioria dos discos, além da presença do inconfundível órgão de Laffayette a partir do LP Jovem Guarda.

Ainda não foi desta vez que o primeiro LP de Roberto Carlos, o raríssimo Louco por Você, teve o seu tão esperado relançamento. A caixa começa no segundo disco, original de 1963, e termina no de 1969. É um pacote contendo a espinha dorsal do movimento que veio a se chamar Jovem Guarda. Hoje existem algumas confusões sobre quem realmente teria participado ou o limite de começo e fim, mas o fato é que Roberto Carlos esteve no cerne o tempo todo. Em 2005 serão comemorados os 40 anos do programa, mas nenhuma coletânea que venha a ser lançada será mais obrigatória do que esta caixa. Há quem cobre da Jovem Guarda o fato de não se ter oposto ao regime militar. A verdade é que as canções de Roberto e seu parceiro Erasmo Carlos falavam de uma contestação diferente, apolítica e até, de certa forma, atemporal. Era a rebeldia de parar na contramão, de trocar um cadillac por um calhambeque, de reclamar da proibição de fumar, de roubar um beijo e levar um tapa, de mandar para o inferno a imagem de playboy que se espera de um ídolo e assumir uma paixão. Essa foi a Jovem Guarda, ao mesmo tempo ingênua e provocadora.

O disco de 1963 já traz a primeira surpresa na remasterização: com exceção de "Splish Splash", "Baby Meu Bem", "Na Lua Não Há" e "Parei na Contramão", que haviam sido lançadas em 78 RPM, as demais faixas pela primeira vez estão em estéreo verdadeiro. Em 1964 saiu É Proibido Fumar, que além da faixa título trazia a histórica "O Calhambeque". Erasmo Carlos desprezou a letra original de "Road Hog" (que falava de um motorista irresponsável que acabava preso pelo xerife no final da música) e contou a história de um sujeito que deixa um cadillac para conserto e pega provisoriamente um calhambeque. Na hora de buscar o cadillac, muda de idéia e decide ficar com o calhambeque. A imagem viraria símbolo da Jovem Guarda, dando origem, por exemplo, à calça Calhambeque. Foi nesse momento que Roberto chegou ao topo e de lá não saiu mais. Além de sair em compacto e no LP As 14 Mais, "O Calhambeque" foi vendido também num disco de papelão como brinde da caneta Shaeffer's.

Roberto Carlos Canta Para a Juventude, de 1965, traz a interessante "Não Quero Ver Você Triste", combinando uma letra declamada com uma melodia apenas assobiada. A voz de Roberto Carlos falando, embora soasse um tanto nasal, tinha uma profundidade que emocionava as fãs. Nesse mesmo LP estavam também, entre outras, "Parei... Olhei...", "Sou Fã do Monoquíni", "Brucutu" e, claro, "História de Um Homem Mau", em que desta vez próprio Roberto inventou uma historinha com enredo completo. O sucesso da música gerou uma paródia de Jorge Ben: "O Homem Que Matou o Homem Que Matou o Homem Mau". Nesse ano estreou na Record o programa "Jovem Guarda", para tapar o espaço criado com as proibições das transmissões de futebol. O êxito do programa incentivou Roberto a dar esse título também a seu disco seguinte.

Jovem Guarda abre com a clássica "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno", em que Roberto insinuava às suas fãs sua disposição de um dia assumir uma relação séria com alguém: "de que vale a minha louca vida de playboy", "só tenho você no meu pensamento", "quero que você me aqueça neste inverno". Aqui está também "O Lobo Mau", versão de "The Wanderer" que já havia sido gravada em 1962 por Renato & Seus Blue Caps no tempo em que Erasmo Carlos fazia parte do grupo. Outra que marcou é "Mexericos da Candinha", com sua influência de Chuck Berry.

O disco de 1966, chamado apenas de Roberto Carlos, contém pelo menos seis músicas antológicas: "Eu Te Darei o Céu", "Nossa Canção" (de Luiz Ayrão, antes de se lançar como cantor e sambista), "Negro Gato" (de Getúlio Cortes, também gravada antes por Renato & Seus Blue Caps), "Namoradinha de Um Amigo Meu" e "É Papo Firme".

O passo seguinte para um ídolo do porte de Roberto Carlos só poderia ser a realização de um filme. Numa época em que eram raras películas brasileiras a cores, "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", do diretor Roberto Farias, é sucesso absoluto nos cinemas. E o LP homônimo, lançado em 1967 é considerado por muitos como o melhor trabalho de Roberto nos anos 60 ou em toda a sua carreira. Ali estão "Eu Sou Terrível", "Como é Grande o Meu Amor por Você", "Por Isso Corro Demais", "De Que Vale Tudo Isso" e a linda "E Por Isso Estou Aqui", bebendo das mesmas águas barrocas dos Rolling Stones da fase Flowers.

O Inimitável, de 1968, foi o último disco de Roberto Carlos do Século XX a trazer um nome que não somente Roberto Carlos. Na época, especulou-se que o título pudesse ser uma cutucada no ídolo Paulo Sérgio, acusado de imitar o Rei. Dizem também que a vendagem do disco, embora excelente, teria ficado abaixo do padrão usual de RC e por isso os demais LPs não tiveram nome. Lance de superstição, mesmo. Números à parte, O Inimitável é um clássico à altura de toda a obra de Roberto Carlos nos anos 60, com "Se Você Pensa", "É Meu, É Meu, É Meu", "Eu Te Amo, Eu Te Amo, Eu Te Amo", "As Canções Que Você Fez Pra Mim" e "Ciúme de Você" (outra de Luiz Ayrão). Em maio desse ano, Roberto casa-se com Nice, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

(Uma observação: existe um disco chamado San Remo 1968, mas trata-se na verdade de uma coletânea de faixas de compactos lançada em 1974. O nome é uma alusão à edição do festival que Roberto venceu com "Canzone Per Te", de Sérgio Endrigo e Bardotti. Mas essa e outras faixas não estão na primeira caixa. Poderão aparecer em alguma das próximas.)

O programa "Jovem Guarda" encerrou em 1968. Coincidência ou não, os artistas que participavam do movimento começaram a buscar uma nova linguagem no ano seguinte. Roberto Carlos não foi exceção. Em seu disco de 1969, a faixa de abertura, "As Flores do Jardim da Nossa Casa", era o começo da transição para a fase romântica e madura dos anos 70. Também neste LP estão "As Curvas da Estrada de Santos" e "Sua Estupidez", depois gravadas respectivamente por Elis Regina e Gal Costa. A veia satírica de Roberto e Erasmo se revela na propositalmente brega "Oh, Meu Imenso Amor", que caiu como uma luva na programação das rádios ao lado de outro sucesso da época, "A Namorada Que Sonhei", de Nílton César. "Não Vou Ficar" foi uma amostra do compositor Tim Maia, da velha turma de Roberto e Erasmo em começo de carreira, mas que só se lançaria como solista nos anos 70. E 1969 foi também o ano do filme "O Diamante Cor de Rosa", com a participação de Erasmo Carlos e Wanderléa.

Assim encerra-se a primeira caixa da série "Pra Sempre". Além da remasterização e das fichas técnicas, as capinhas trazem as imagens originas dos LPs escaneadas em altíssima definição. O CD em si imita o rótulo original dos discos da CBS (hoje Sony Music). As caixas seguintes prometem incluir algumas surpresas, mas só teremos os detalhes e as emoções em 2005.


* Artigo publicado originalmente no International Magazine nº 108, de Dezembro de 2005.