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A era de ouro de um rei legítimo como poucos
Diretamente da Alemanha, Felipe Tadeu envia sua análise da caixa de CDs que inaugura a fase romântica de Roberto Carlos - com os grandes clássicos dos anos 70.

Felipe Tadeu*


Foi nos anos sessenta que Roberto Carlos Braga, um jovem capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, começou a dar o que falar no cenário musical brasileiro. Sem saber direito o que iria deflagrar pela frente, levando a recém-nascida Bossa-Nova para segundo plano e abrindo - com guitarras e sintetizadores - uma cisão irremediável na música brasileira que iria desencadear no Tropicalismo, Roberto Carlos precisou de pouco tempo para conquistar uma acachapante soberania nas ondas de rádio no Brasil, se estabelecendo como o nosso primeiro pop star.

É curioso notar o quão talentoso foi o artista de origem provinciana em sobreviver instintivamente e sem nenhum arranhão à radical mudança comportamental que passou na virada das décadas dos Beatles e Stones para a do "fim do sonho" nos setenta. Do rapaz rebelde chegado aos pegas de automóveis para o cantor romântico que iria seduzir o Brasil (e mesmo parte do mundo), este ex-crooner de Bossa-Nova escolado nas noites da fatídica Copacabana conseguiu a proeza de se manter até hoje como a mais sólida figura lançada no mercado fonográfico nacional. E ao contrário do que poderiam pensar seus detratores, Roberto Carlos se manteve no trono não pelos tradicionais caprichos corruptores da indústria do disco, e sim por talentos indiscutíveis do grande cantor e showman que é, que foi e que sempre será, de quem sabe como ninguém interpretar a alma sentimental do povo brasileiro e seu dote abolerado. Afinal, não estamos falando do país das telenovelas?

Os discos deste ex-datilógrafo do Ministério da Fazenda que saíram nos anos setenta estão gravados na memória afetiva de todos nós, brasileiros, que tivemos que aturar (ou apoiaram) a truculência dos anos Médici, Geisel e dos verdugos golpistas posteriores. Canções de amor como 120, 150, 200 km Por Hora, Detalhes, Os Seus Botões e tantos outros títulos conviviam intercaladas com faixas inspiradas na chamada black music norte-americana, como o incrível soul Todos Estão Surdos, com letra de apelo messiânico, ou no gospel também de perfil religioso Jesus Cristo. Sim, Roberto Carlos sabia o que estava rolando de maravilhoso nos Estados Unidos em termos de som, a terra de James Brown e Curtis Mayfield, onde a contracultura viscejava como resposta ao racismo anglo-saxônico e ao genocídio promovido na guerra do Vietnã. É bom lembrar que um dos parceirinhos de roda de violão mais chegados a Roberto nos seus primórdios era nada mais, nada menos que Sebastião Maia, o Tim Maia da velha turma da rua do Matoso, na Tijuca, Rio de Janeiro. Sim, havia muita gente carola naquele bairro conservador da classe média carioca, mas também tinha os caras que sabiam o que era um balanço. Roberto Carlos teve a sorte de estar àquela época junto de dois grandes mestres do suíngue, tanto do citado líder da Vitória Régia, como do seminal Jorge Ben. E de Erasmo Carlos, outro fera, este mais ligado no rock.

O Pasquim, periódico do ratinho que rugia enfrentando os leões da ditadura militar, publicou no começo dos anos setenta uma entrevista tão antológica quanto rara com o rei do iê-iê-iê, em que ele conta como conheceu o "síndico": "O Tim estava com uma máscara de borracha na cara, ele tinha brigado com um guarda e tinha levado uma porrada (é, o termo é esse mesmo!) na testa". Deu pra sentir o pique da turminha em que andava o doce cantor? Foi com eles e com Edson Trindade (autor do clássico Gostava Tanto de Você) e Arlênio Gomes que Roberto montara as suas primeiras bandas de bailinho no Rio, a The Sputiniks (1957) e a The Snakes de um ano depois. Portanto, quando o nobre torcedor vascaíno e cidadão honorário da Urca começou a empunhar o microfone para cantar o amor de seu jeito único, ele já havia passado por Bill Halley, Little Richard, Chuck Berry e, claro, Elvis Presley.

Os primeiros discos da década de setenta traziam um Roberto cabeludão, de visual hippie, que lhe caía bem pra caramba. Autêntico. Interessante também que aquele cantor que arrebanhou as multidões pelo Brasil adentro louvando Jesus Cristo, só tenha feito a primeira comunhão aos 19 anos, meses depois de ter sido batizado(!). Sua primeira esposa, Nice, com quem teve um casal de filhos, era uma mulher desquitada, sinal de que Roberto não era mesmo tão conservador assim. O artista também já havia atuado em chanchadas de Carlos Manga, como no filme Minha Sogra é da Polícia, em que Roberto fizera uma ponta, tocando violão ao lado de Cauby Peixoto cantando rock. Acredite, é verdade.

O álbum de 1971 é, provavelmente, o melhor da discografia do rei. É nele que estão pérolas como Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, composta por Roberto para o amigo tropicalista Caetano Veloso, quando este amargava o exílio em Londres. "Caetano é um santo. Tudo que ele diz tem uma pureza, uma autenticidade, um negócio fora do comum", elogiara o parceiro de Erasmo na entrevista com o pessoal de O Pasquim. Em retribuição à homenagem musical de Roberto, o baiano escreveu Como Dois e Dois, que também está no mesmo álbum ao lado de Todos Estão Surdos, Detalhes, e as fossudas Se Eu Partir, de Fred Jorge, e De Tanto Amor, esta assinada por Roberto e Erasmo, além de Eu Só Tenho Um Caminho, de autoria de Getúlio NegroGato Côrtes.

Os doze CDs que chegam agora ao mercado trazem uma série de clássicos de Roberto que vai deixar muita gente arrepiada ao reouvir canções simplesmente eternas como Palavras, Despedida, Quero que Vá Tudo Pro Inferno, Olha, Mucuripe (parceria de Fagner & Belchior), Ilegal, Imoral ou Engorda, Preciso Chamar Sua Atenção, Um Jeito Estúpido de te Amar, O Show Já Terminou, Eu Disse Adeus, Falando Sério, Força Estranha (outra de Caetano) e Desabafo, dentre muitas outras. A boa qualidade técnica dos lps produzidos a partir de 1971 foi decorrente do investimento extra que a CBS resolveu fazer, levando Roberto a gravar seus discos anuais nos estúdios norte-americanos. O resultado não poderia ter sido mais extraordinário, pois Roberto Carlos superou brincando a suntuosa marca do milhão de álbuns vendidos e aí permaneceu. Os especiais de Natal transmitidos pela Rede Globo a partir de 1974 (a cores, para todo o Brasil) eram a melhor vitrine que Roberto poderia ter para promover seus discos, esbanjando um carisma de fazer inveja ao outro rei do país, o Pelé.

A ala mais engajada da música brasileira, que combateu a ditadura cara-a-cara, correndo o risco de ser censurada, presa, torturada e exilada, via em Roberto Carlos um acomodado oportunista, que enriquecia a trezentos por hora. Uma visão que o tempo foi tratando de dissipar por razões óbvias, pois Roberto sempre foi idolatrado pelo povo e, negá-lo, seria como torcer para a Itália na final da Copa de setenta. Ou será que o ótimo melodista que ele foi naquela década não merecia ganhar de 4 a 1?

Roberto Carlos e Erasmo estão para todos que amam a música do Brasil como João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento e Fernando Brant, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Paulo César Pinheiro e João Nogueira, Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, Chico Buarque e Francis Hime, Noel Rosa e Vadico. São nomes de quinta grandeza, acima do bem e do mal, porque escolhidos pelos milhões de brasileiros que os elegeram como principais porta-vozes desta nossa civilização.

* Artigo publicado originalmente no International Magazine nº 112, de Maio de 2005.